domingo, 20 de novembro de 2011

Quando teu mundo desacelerar



Quando teu mundo desacelerar,
e caminhares como humano,
serás humanidade.
E quando respirares,
não serás inverno.
Serás vento gentil.
Serás límpido céu.
Serás herança para teus filhos
quando deixares teu mundo menos hostil.

Quando sentires o hálito fresco
e abdicares do concreto das fábricas,
em tuas veias fluirá quietude e pureza.
Então beberás da água
corrente em límpidos regatos,
ciliados por matas
de inocente beleza.

Desce, pois,
de tua arrogância.
Abdica de tua agrura.
Desacelera teu mundo.
Caminha com asas
e aprende com o tempo,
algo sobre brandura.

Anderson Lobo
(pescador de Lua, domador de palavras e alquimista nas horas vagas)

sábado, 24 de setembro de 2011

Poetizar:


Arte: Paulo Marcos M. Santos


pescar (pacientemente)
em mares de sensações,
sob idílico céu,
letra por letra
das palavras ditas pela alma.

Anderson Lobo
(pescador de estrelas e versos)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Jonathan Briley

Foto: Richard Drew

Setembro, 
nave 
e tombo.
Morte, 
tua face
ensandecida nos contempla.
 
Fogo,
fuligem 
e colapso.
Ferro retorcido.
Sensatez, 
teus filhos estão loucos.

Barulho, 
sirene e grito.
Golias,
Davi atirou a pedra.*

O mundo se pergunta
enquanto o voo solitário.
Um mundo estarrecido
e o voo,
letal.
Audacioso.

Não, 
não há mais tempo...
Não há mais setembro
para Jonathan Briley.
Ele cai.

Jonathan Briley
simplesmente
cai.

Anderson Lobo




* Poeta Rogério Salgado:


terça-feira, 9 de agosto de 2011

Sobre Robert Johnson



Desenho: Robert Crumb


Dizem sobre o diabo...
o Mississippi e o blues.
Quem dirá que não foi profano?
Dizem que foi em uma encruzilhada...
Lá pelas tantas, um algoz e um trato.
O peito em chamas,
suas mãos dançando como nunca pelas cordas do violão.
Quem dirá que não?
Dizem que foi trágico...
Poeta,
por linhas tortas e curvas de mulheres,
desenhando
blues.
Caminhando com a sutileza de um ébrio
(vida e whisky envenenado).
Com a sina de um Fausto.
Com a incerteza de um errante.

Quem dirá que não foi sagrado? 


Anderson Lobo

sábado, 30 de julho de 2011

Homenagem ao Homem do Disco Voador




Se me falta alguma luz,
importa algum pouco de existência.
Olhos da alma,
pescando sonhos,
mansas pegadas
em túnel
que vai além das montanhas azuis.
Há uma fonte de água viva logo mais.
E além do obstáculo,
vive um menino lúcido.
Saltador na velocidade da luz.
Se a mania de carpinteiro do universo,
me fizer sofrer,
é que sou egoísta.
E eu posso ser calor,
mesmo em pleno século XXI.
Afinal somos metamórficos.

Se o meu peito é tão frágil,
sou um receptáculo de emoção
Sou humano que só faz sentimentos.
Coisas do coração.
Se hoje sou estrela,
amanhã, quem sabe?
Terá sido apenas uma viagem?
Mensagem que me chega sem parar?
Talvez aventureiro maluco do cosmos.
Poesia de versos antigos,
de um velho sábio chinês.

Obrigado pela poesia.
Pelo inconformismo,
Veneno contra o que é
velha opinião.
Obrigado pelo rock e pelo blues
e pelo regional do Jackson do Pandeiro.
Obrigado por me dar um toque sobre
como caminhar sempre avante
no nada infinito.
E mais além!

Anderson Lobo 
(pescador de Lua, admirador de cosmos e astronauta nas horas vagas)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Paixão

Fogo na treva de uma noite calma.
Violenta lava que do peito aflora.
Vulcão irrompe da montanha aurora.
Desassossego invade corpo e alma.

Selva truculenta de sentimentos.
Em âmago não há contentamento
Que aplaque vontade de carne e seio
De alguém que aspira ao que lhe é alheio.

Seja temporal no deserto agrura.
Seja o céu, espetáculo e trovão.
Seja mar de desvario e loucura.

Seja rio entre cânion solidão.
Seja caudaloso elixir que cura.
Seja capaz de abrandar a razão.
Anderson Lobo
(pescador de Lua, admirador de cosmos e astronauta nas horas vagas)

terça-feira, 31 de maio de 2011

Deus...

 imagem: autor desconhecido
...inominável.
abissal estranhamento.
total arrebatamento.
imensurável.
remoto.
origem
e ocaso.
onírico e obra.

... criar e ceifar.
enlouquecer frente ao imenso.
mistério,
para além de nós.
para além dos templos.
o vento,
e o tempo.
pergunta,
sem resposta.
big-bang da aurora.
crepúsculo das eras.
céu,
morada de galáxias.
megatons,
cosmos e confins.
criatura,
à nossa imagem.
inquietude.

...vida e morte.
em profusão, amor.
em imensidão, terrível.
aquilo que somos.
onde iremos.
o que nunca fomos.
o nada
e o sempre.
o tudo
e o talvez.

Anderson Lobo
(admirador de cosmos)


segunda-feira, 23 de maio de 2011

o barqueiro


  Artesanato de Zé do Balaio - Almenara (Vale do Jequitinhonha)



"Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio"

Heráclito

o barqueiro cruza,
paciente,
o rio
ligando margens
e pessoas.
e são turvas as águas,
pelas quais navega!
estirpe dos iluminados,
venceu a solidão.
aprendendo com o rio.
o nobre, e difícil, ofício de amar.


o barqueiro rompeu com o eterno,
quebrou o ciclo,
rumo à plenitude.
quando sorri,
é indício de absoluta paz.
santo,
comunga com o todo.
mansa,
sua embarcação,
tal qual sua alma.
pois, lição,
leva o rio dentro de si.
além,
o barqueiro é o rio,
cujas águas são a própria vida.

Anderson Lobo
(aprendiz de canoeiro)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Lua (Para Luanda, por quem meu coração pulsa com sabor)


arte: Anderson Lobo


Lua, aos poetas e trovas, afeita.
Pulsando em cosmos, fulgente clarão.
Linda e além, forma onírica e perfeita
Ente sensual, santa inspiração.

Lua, como um servo à noite fiel
Canto teu ser na viva imensa treva.
Sobre montanha, uivando ao léu.
Contemplando teu corpo, negro de Eva.

Sê, Lua boa, dragão e astronauta.
Nua, sê aura a guiar o errante.
Teu enlevo, canção, que o bardo exalta.

Teu colo, reduto calmo ao infante.
E quando do dia, teu brilho falta,
Sê sonho terno na mente do amante.

Anderson Lobo
(apaixonado e ponto)


quarta-feira, 27 de abril de 2011

conversas e amigos



madrugadas tantas,
conversas santas
e animadas.
a loucura regadas.
lúcidas e acaloradas.
por vezes, sensatas.
profundas,
inexatas.

amigos!
desvairados
o suficiente.
sábios
abundantemente.
conselheiros
e divergentes.
ordeiros
e imprudentes.

munidos de bons copos de risos,
brindemos à amizade,
lar da compreensão!


Aos amigos: Raul, Lucas e Giovanni
(Obrigado pela sensatez, quando da minha loucura.
E quando da minha sensatez, obrigado pela loucura.)

Anderson Lobo
(aprendiz de domador de palavras)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Peregrino

foto: autor desconhecido

Os pés, descalços e feridos. A alma absorta em pensamentos incertos e dúvidas. A praia deserta e as águas do Mar da Angústia, escuras e frias. Agitadas, as ondas morriam com algum rebuliço na areia grossa.

Peregrino observava com horror, o crepúsculo.  Havia expressão fatídica em sua face pálida e a noite desabava, pesadamente sobre sua alma.

Espectro flutuava sobre as águas do mar e ouviu os clamores de seu âmago. Aproximando-se de Peregrino, deixou-se ficar ao seu lado.

— Amaste e adormeceste ao lado de fera. — sussurrou, sob forma de brisa gélida, no ouvido do Peregrino — Aprendeste com a entrega? Recebeste espinhos em lugar de flores?

Peregrino sentiu calafrio e não foi capaz de encarar Espectro. Novas palavras ecoaram. “Anoiteceste e jamais serás alvorada, Peregrino. Entrega-te a fera de uma vez! Tua busca não tem propósitos. Essa praia, onde prosternas, é o túmulo de tua última quimera!”

Peregrino então lançou o olhar em direção ao poente, onde alguns parcos raios solares ainda teimavam em irradiar alguma luz. Disse como em monólogo, vacilante, embora com firmeza suficiente para ser ouvido pelas águas do mar:

― Oh! Morte, zombeteira e poderosa, dona de incontáveis desgraças! Seduz-me com lábios gélidos, mas, creio, ainda é tempo de caminhar!

— Mas teus pés doem, Peregrino! E teu amor foi vão, assim como teu sacrifício! Estás tão só e teu ocaso vem vindo!

— Admito... desejo teu beijo.
           
— Sim, Peregrino! Sei que tu desejas o veneno de meus lábios!

— Mas ainda é tempo de caminhar...

— Então, insistes na tua própria derrota? — Espectro em tom irônico — Se queres sofrimento, teu verdugo o aguarda. Mas redenção somente eu posso lhe oferecer. 

— Há redenção, que não em teus braços! Haverá outros arrebóis!

Aterrador silêncio se fez, enquanto o céu era envolvido pela noite. Peregrino sorriu, como se estivesse a recuperar um pouco de sua lucidez.

— Aprende com tua loucura, Peregrino. Sê lúcido o suficiente para enfrentar a dor da existência.

Ante tais palavras, Espectro retomou ao mar e Peregrino pôde, enfim, apreciar algo de belo na noite que já era completa. “Eis a única dor que traz alguma luz: a existência!”, foi esse o pensamento que emergiu em sua mente, antes de adormecer sobre as areias calejadas que eram banhadas pelo Mar das Angústias.

Manhã surpreendeu Peregrino, dormindo. Mas este acordou a tempo de acompanhar os momentos finais do arrebol. “O mais edificante dos espetáculos!”

Anderson Lobo
(errante)


sexta-feira, 4 de março de 2011

O Menino e o Monge


O monge meditava, sob a sombra umbrosa de uma árvore, em lugar calmo e suficientemente distante de qualquer aglomeração humana. Passava bem perto dali o menino que, ao vê-lo, parou curioso. O pequeno, então, repousou sua vara de pescar no chão e foi se esconder atrás de um arbusto, de onde podia observar o monge.

Na posição de iogue, os olhos fechados, o monge trazia semblante sereno e as mãos em formato de concha, repousadas sobre as pernas. Imóvel, parecia estar profundamente concentrado, como que impassível e ao mesmo tempo em comunhão com a paisagem bucólica que o rodeava.

Coçando a cabeça, o menino sorriu. Ouvira algo sobre aquele tipo de gente, mas nunca tinha visto tão de perto. Como podia, aquele homem, ficar naquela posição sem se mexer? E, principalmente, por que?

Então o menino sentiu fascínio por figura que lhe era tão estranha. Cautelosamente, saiu detrás do arbusto e, andando calmamente, se aproximou do monge. Ficou estático por algum tempo com o olhar fixo no rosto do sério homem. Levou uma mão à boca para abafar o som de um risinho.

Enquanto isso, o monge continuava absorto, respirando lentamente, como se não tivesse, sequer, percebido a sua presença.

“Será que está dormindo sentado?”, perguntou o menino para si, se aproximando ainda mais. A apenas alguns passos, percebeu que se tratava de homem maduro, em cujo rosto se delineavam algumas rugas.

“Não, não parece estar dormindo... mas está pensando em que?”, o menino ficou bem perto do monge. Então, uma ideia aparentemente brilhante lhe veio à mente e, imediatamente, a pôs em ação. Com algazarra, começou a pular e a gritar como um macaco. Também dançou, como tinha visto um homem fazer uma vez.

Em seguida, bem perto do monge, fez uma careta ruidosa, a mais feia que conseguiu. O monge, contudo, continuou estático, ignorando todos seus gracejos.

Com algo de decepção em sua expressão, o menino ficou novamente quieto. “Acho que quando crescer, quero ser um homem assim...”, pensou subitamente abrindo grande sorrindo. Então, após recolher sua pequena vara de pescar do chão, retomou seu caminho assoviando uma entusiasmada canção.

E quando o menino havia ido, o monge sorriu. “Ainda me torno um menino assim...”

Anderson Lobo
(apaixonado e ponto)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Aldeia Global

O mundo adentra meu universo
Em ondas incessantes de informações.
Torrente de imagens
Sons, culturas, etnias e contradições.
A beleza destruída pela força da grana
O playground bilionário sob o sol, em Dubai
A sangrenta guerra civil na nação africana
O arranha-céu vertiginoso erguido em Xangai.
O mundo é rico, o mundo pobre
A humanidade, uma aldeia global,
Utopia da complexa rede que nos une,
Restrita apenas ao campo virtual.
No ciberespaço sem limites, o mundo está em todo lugar
Mas não ultrapasse seu universo.
Não é permitido tocar
Finja que está interagindo.
Contente-se em apenas olhar.

Anderson Lobo
(pescador de estrelas domador de palavras e alquimista nas horas vagas)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Revolução




A revolução virá.
Virá da utopia dos loucos.
Virá da força contida dos povos.
Dos oprimidos
despertos do sono do comodismo.
Virá por parte dos humildes,
das mãos calejadas
e dos puros corações!

A revolução soará contra os déspotas!
Surgirá dos resquícios das senzalas.
Virá dos gritos dos mortos,
infalível,
como a mais letal das vidas.

A revolução será profana!
Contra os ditames e dogmas!
Varrerá preconceitos,
rugindo aos moradores das redomas.
Afrontando a hipocrisia dos caducos
e dos coronéis,
velhos e cansados.

A revolução será vendaval,
revirando as sólidas estruturas dos arranha-céus.
Fazendo do que é sólido, pó.
Erigindo novo tempo.
Conclamando os homens a serem, enfim,
humanos.

Anderson Lobo
(pescador de estrelas, domador de palavras e alquimista nas horas vagas)