quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Terapia Ortográfica

(crônica publicada na edição 12 da Revista Avessa: http://revistavessa.com/2016/11/revista-avessa-no-12/)

A terapia ortográfica em grupo acontecia todas as terças, à noite. Costumavam participar letras, sílabas, palavras, sinais de pontuação, enfim quase toda fauna da digníssima língua portuguesa. Sentavam em círculo em uma sala arejada, e desabafavam seus dilemas existenciais, sob a coordenação do, sempre cordato, “ponto final”.

— Sou vítima de xenofobia — o “W” desabafava — Nunca fui plenamente integrado pela língua portuguesa.

— Taxam-me de complicado! — o “que” se manifestava — Mas não sou complicado, apenas incompreendido! Entendem?

O “ponto final” ouvia com atenção, supervisionando as falas, sempre atencioso, calmo e paciente.

— Não sou pronunciado corretamente, constantemente suprimem minhas letras... — lamentou-se, certa vez, o pronome “você” — Em tempos áureos já fui conhecido como “Vossa Mercê”, mas hoje, referem-se a mim simplesmente como “cê”. Isso é ultrajante!

— Isso ocorre o tempo todo? — perguntou o “ponto final”.

— Não... depende do falante. Mas em alguns lugares fazem isso com muita naturalidade...

— Quer saber? — interrompeu o “H” com impaciência — O meu caso é muito pior! Nem tenho som próprio. Em boa parte do tempo, sou usado como mero adorno para vogais! E, sinceramente, estou farto de me juntar ao “C” para formar um som de “X”. E tudo isso para satisfazer os caprichos da onipresente norma culta!

— Calma, colega! — veio o “ponto final”, todo tranquilo — Não podemos culpar a norma culta. Ela existe para nos orientar!

— Orientar? Mas às vezes ela gera tanta confusão! — foi a vez do “hífen” se pronunciar.

— Norma Culta?! — disse, com desdém, a expressão “a gente vamos”— Faça como eu, assuma de vez sua relação com o coloquial. Só assim, eu pude ser aceita. E olha que alguns gramáticos já não me ignoraram!

— Sacripanta!!! — o faustoso “vós” não pôde deixar de exclamar — Abomino essa política de inclusão, a que somos submetidos! Uma expressão desairosa como essa aí, ser aceita?

— Olha, queridinho! Saiba que sou muito mais popular que você.

— Popular?! — o “vós”, com o dedo em riste — Isso não muda o fato de que és uma das responsáveis pela decadência da língua portuguesa! Gente da tua laia não deveria se misturar conosco. Não passas de uma grande aberração!

— ABERRAÇÃO? — Os ânimos se exaltaram naquele momento e houve o início de uma pequena discussão ortográfica. Houve até quem evocasse as indesejáveis palavras de baixo calão. E foi com algum trabalho que o, sempre inquestionável, “ponto final” conseguiu acalmar os presentes.

— Ordem, caríssimos! Não vamos nos esquecer de que alguns colegas ainda não se pronunciaram. “Trema”, você quer dizer alguma coisa?

— Eu sou a “trema” e atualmente não tenho mais função na língua portuguesa. — Desabou em pranto a pobrezinha e só foi parar quando alguém adentrou a sala, sem bater na porta. Todos olharam para o recém-chegado, que lançou um olhar confuso aos presentes.

— Desculpe... — disse o “zero à esquerda”, um tanto ruborizado — É aqui a terapia em grupo para números?

— Não, amigo! — disse o “ponto final” — Na sala ao lado.

— Coitado! — cochichou o “que” — Esse aí deve estar na mesa situação do “dois de paus”!

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Crusaders


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— Tomei uma decisão. — ele tomou um bom gole de uma loira, estupidamente, gelada — Futebol, não perco mais meu tempo...

— O quê?! — o amigo lhe lançou um olhar de surpresa.

— É um desgaste desnecessário para minha vida.

— Deixa de papo, bixo!

— Falo muito sério.

— Como assim?

— Existem coisas mais importantes pra me preocupar. Um time de futebol não pode ser o centro das minhas atenções.

— Foi a derrota do último fim de semana, né?! — o amigo não pode deixar de sorrir — Mas seu time não está tão mal... ano passado foi pior...

— Essa história se repete, ano após ano. Derrotas atrás de derrotas, os jornais comentando, o pessoal do serviço... Cara, é apenas futebol. E isso não irá mudar minha vida em nada!

— Ah, não me venha com essa! Você está assim porque seu time perdeu no último fim de semana.

— Não é algo que me ocorreu de repente. Já estou pensando nisso há tempos. Esses jogadores de futebol ganhando rios de dinheiro, dirigentes corruptos, juízes comprados. Futebol é uma farsa!

— Não me venha com essa conversa de novo!

— Ontem, vi uma partida de rugby, pela TV à cabo.

— O quê?

— Rugby é um esporte muito popular na Inglaterra, Austrália..., Nova Zelândia. Andei procurando algumas informações no google... É como futebol americano, só que ainda mais violento.

— Nova Zelândia? Futebol americano? Você só pode estar de brincadeira, né?

— Rugby é muito melhor que futebol.

— Isso é o que você diz.

— Pode acreditar, estou realmente deixando de gostar de futebol!

— Tudo bem, então. Se é assim, você não vai querer saber quem o seu time está contratando...

— Meu time de futebol? Não, não torço por nenhum time de futebol. Sou torcedor dos Crusaders, uma ótima equipe de rugby.

— É uma informação quente, um jogador consagrado. Soube de uma fonte segura.

— Sei onde você está querendo chegar...

— Ainda não divulgaram na mídia, para não melar a negociação. Mas é certo que será contratado.

— E você está falando sobre rugby?

— Então tá. Digamos que eu acredite que você não quer mesmo saber...

— Agora você está entendendo a coisa toda!!! — ele levantou o copo, triunfalmente, antes de tomar seu conteúdo. — Em homenagem aos Crusaders, os melhores jogadores de rugby do mundo.

E foi somente no final da quinta garrafa que ele tocou no assunto.

— Merda... Quem é esse jogador?

O amigo sorriu e chamou o garçom.

— Por favor, a saidera, para o Rubens, que, afinal de contas, é torcedor fanático dos... Crusaders!