Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 31 de agosto de 2021

O Trato

A description... 

  Arte: Robert Crumb
 

 

Era meia-noite.


— Você tem um belo violão! — ele me disse. Tinha modos polidos e voz calma. Usava um terno branco e sapatos engraxados.


— É meu único bem... além da alma... — a noite era completa e uma lua inchada iluminava a encruzilhada deserta. Quatro caminhos partiam em linha reta daquele ponto e se perdiam nas entranhas da noite. Lembro-me de um vento frio, levantando poeira e levando algum aroma de medo ao meu âmago.


Ele me dirigiu um sorriso sedutor, sabia que eu iria até o fim. A aba de seu belo chapéu não permitia que eu contemplasse seus olhos, mas, se bem me lembro, eles brilhavam em um tom rubro.


— Você quer tocar o blues, garoto?


— É tudo que quero.


— Pagará o preço?


Fiz um gesto afirmativo com a cabeça e nos sentamos sobre uma pedra. Ofereci-lhe o violão. 


Ele afinava as cordas, enquanto o observava, hipnotizado. Uma atmosfera opressora penetrava meus pulmões.


Então ele tocou o blues. Eram acordes, como jamais havia ouvido. E eram mãos ágeis, as que percorriam o instrumento.


— Bom negócio! — ele me entregou o instumento e, sem anunciar, se levantou.


Não fui capaz de dizer mais nada. Apenas o observei desaparecer nas trevas da noite. Fiquei estático por algum tempo, que não posso precisar. E só então tomei coragem para arriscar alguns acordes.


Acho que amanhecia quando coloquei o violão nas costas e deixei a encruzilhada. Algumas pessoas passaram por mim, quando seguia pela estrada, que me levaria ao norte. Lançavam olhares para mim, como quem olha para um pobre diabo. Mal sabiam a verdade...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Terapia Ortográfica


 

 

(crônica publicada na edição 12 da Revista Avessa: http://revistavessa.com/2016/11/revista-avessa-no-12/)


A terapia ortográfica em grupo acontecia todas as terças, à noite. Costumavam participar letras, sílabas, palavras, sinais de pontuação, enfim quase toda fauna da digníssima língua portuguesa. Sentavam em círculo em uma sala arejada, e desabafavam seus dilemas existenciais, sob a coordenação do, sempre cordato, “ponto final”.

— Sou vítima de xenofobia — o “W” desabafava — Nunca fui plenamente integrado pela língua portuguesa.

— Taxam-me de complicado! — o “que” se manifestava — Mas não sou complicado, apenas incompreendido! Entendem?

O “ponto final” ouvia com atenção, supervisionando as falas, sempre atencioso, calmo e paciente.

— Não sou pronunciado corretamente, constantemente suprimem minhas letras... — lamentou-se, certa vez, o pronome “você” — Em tempos áureos já fui conhecido como “Vossa Mercê”, mas hoje, referem-se a mim simplesmente como “cê”. Isso é ultrajante!

— Isso ocorre o tempo todo? — perguntou o “ponto final”.

— Não... depende do falante. Mas em alguns lugares fazem isso com muita naturalidade...

— Quer saber? — interrompeu o “H” com impaciência — O meu caso é muito pior! Nem tenho som próprio. Em boa parte do tempo, sou usado como mero adorno para vogais! E, sinceramente, estou farto de me juntar ao “C” para formar um som de “X”. E tudo isso para satisfazer os caprichos da onipresente norma culta!

— Calma, colega! — veio o “ponto final”, todo tranquilo — Não podemos culpar a norma culta. Ela existe para nos orientar!

— Orientar? Mas às vezes ela gera tanta confusão! — foi a vez do “hífen” se pronunciar.

— Norma Culta?! — disse, com desdém, a expressão “a gente vamos”— Faça como eu, assuma de vez sua relação com o coloquial. Só assim, eu pude ser aceita. E olha que alguns gramáticos já não me ignoraram!

— Sacripanta!!! — o faustoso “vós” não pôde deixar de exclamar — Abomino essa política de inclusão, a que somos submetidos! Uma expressão desairosa como essa aí, ser aceita?

— Olha, queridinho! Saiba que sou muito mais popular que você.

— Popular?! — o “vós”, com o dedo em riste — Isso não muda o fato de que és uma das responsáveis pela decadência da língua portuguesa! Gente da tua laia não deveria se misturar conosco. Não passas de uma grande aberração!

— ABERRAÇÃO? — Os ânimos se exaltaram naquele momento e houve o início de uma pequena discussão ortográfica. Houve até quem evocasse as indesejáveis palavras de baixo calão. E foi com algum trabalho que o, sempre inquestionável, “ponto final” conseguiu acalmar os presentes.

— Ordem, caríssimos! Não vamos nos esquecer de que alguns colegas ainda não se pronunciaram. “Trema”, você quer dizer alguma coisa?

— Eu sou a “trema” e atualmente não tenho mais função na língua portuguesa. — Desabou em pranto a pobrezinha e só foi parar quando alguém adentrou a sala, sem bater na porta. Todos olharam para o recém-chegado, que lançou um olhar confuso aos presentes.

— Desculpe... — disse o “zero à esquerda”, um tanto ruborizado — É aqui a terapia em grupo para números?

— Não, amigo! — disse o “ponto final” — Na sala ao lado.

— Coitado! — cochichou o “que” — Esse aí deve estar na mesa situação do “dois de paus”!

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Crusaders


Resultado de imagem para crusaders rugby

— Tomei uma decisão. — ele tomou um bom gole de uma loira, estupidamente, gelada — Futebol, não perco mais meu tempo...

— O quê?! — o amigo lhe lançou um olhar de surpresa.

— É um desgaste desnecessário para minha vida.

— Deixa de papo, bixo!

— Falo muito sério.

— Como assim?

— Existem coisas mais importantes pra me preocupar. Um time de futebol não pode ser o centro das minhas atenções.

— Foi a derrota do último fim de semana, né?! — o amigo não pode deixar de sorrir — Mas seu time não está tão mal... ano passado foi pior...

— Essa história se repete, ano após ano. Derrotas atrás de derrotas, os jornais comentando, o pessoal do serviço... Cara, é apenas futebol. E isso não irá mudar minha vida em nada!

— Ah, não me venha com essa! Você está assim porque seu time perdeu no último fim de semana.

— Não é algo que me ocorreu de repente. Já estou pensando nisso há tempos. Esses jogadores de futebol ganhando rios de dinheiro, dirigentes corruptos, juízes comprados. Futebol é uma farsa!

— Não me venha com essa conversa de novo!

— Ontem, vi uma partida de rugby, pela TV à cabo.

— O quê?

— Rugby é um esporte muito popular na Inglaterra, Austrália..., Nova Zelândia. Andei procurando algumas informações no google... É como futebol americano, só que ainda mais violento.

— Nova Zelândia? Futebol americano? Você só pode estar de brincadeira, né?

— Rugby é muito melhor que futebol.

— Isso é o que você diz.

— Pode acreditar, estou realmente deixando de gostar de futebol!

— Tudo bem, então. Se é assim, você não vai querer saber quem o seu time está contratando...

— Meu time de futebol? Não, não torço por nenhum time de futebol. Sou torcedor dos Crusaders, uma ótima equipe de rugby.

— É uma informação quente, um jogador consagrado. Soube de uma fonte segura.

— Sei onde você está querendo chegar...

— Ainda não divulgaram na mídia, para não melar a negociação. Mas é certo que será contratado.

— E você está falando sobre rugby?

— Então tá. Digamos que eu acredite que você não quer mesmo saber...

— Agora você está entendendo a coisa toda!!! — ele levantou o copo, triunfalmente, antes de tomar seu conteúdo. — Em homenagem aos Crusaders, os melhores jogadores de rugby do mundo.

E foi somente no final da quinta garrafa que ele tocou no assunto.

— Merda... Quem é esse jogador?

O amigo sorriu e chamou o garçom.

— Por favor, a saidera, para o Rubens, que, afinal de contas, é torcedor fanático dos... Crusaders!

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A Camisa Alvinegra





Bem-aventurados os que não entendem nem querem entender de futebol, pois deles é o reino da tranquilidade. Carlos Drummond de Andrade



Ele chegou pelas tantas, depois da meia-noite. Ela estava na cama, ainda acordada, lendo um livro.

— Você soube, né?!

Ela apenas balançou a cabeça em sinal afirmativo, enquanto fechava o livro.

— Passava dos quarenta do segundo tempo... Estávamos vencendo... Mas tomamos dois gols, seguidos. Dá para acreditar?
            
— Ouvi alguns gritos, fogos... — um leve cheiro de álcool lhe veio ao nariz — Bebeu?

— Um pouco...


— Um pouco?


— Tínhamos que chorar nossas mágoas. Você sabe... estávamos com as mãos no caneco, mas levamos dois gols em cinco minutos!
            
Ela se sentou na cama e ele se manteve em pé, onde estava. Ele trazia uma expressão de amargura e ela, de compaixão. Ela, de camisola branca e ele usando a camisa alvinegra, suada.
            
— Íamos finalmente ser campeões, estávamos muito perto. — entre um longo suspiro — Ninguém na arquibancada acreditou quando fizeram o segundo gol, um cochilo da zaga...
            
— Não devia sofrer tanto por isso!
            
— Você não entende, não é?!
            
— Não, eu não entendo o porquê de tanta angústia. É apenas futebol!
            
Ele não lhe deu atenção. Continuou estático, e como em um monólogo:
            
— Esse ano as coisas pareciam diferentes. O time estava entrosado, uma ótima campanha, a torcida correspondendo... Mas foram necessários apenas cinco minutos! Dois gols no finalzinho da partida? Isso é demais para meu coração alvinegro!
            
Ele não conteve as lágrimas.
            
— E você me diz que é apenas futebol? — conseguiu dizer.
            
Sentindo-se algo culpada, ela se levantou e, o abraçando:
            
— Venha, vamos dormir.
            
Aos prantos, feito menino, ele se entregou àquele abraço quente e afundou a cabeça no ombro que lhe era oferecido. Com a voz engasgada:
            
— Você tem razão... — Eu não devia sofrer tanto por isso. Temos coisas mais importantes com o que nos preocupar... mas estivemos tão perto de conquistar o título! Acho que nunca teremos outra chance!
            
— Não diga isso! — ela lhe afagava as costas com carinho — Quem sabe no ano que vem?
            
— O que?! — levantou a cabeça e repeliu o abraço, com alguma agitação — Ano que vem? Isso termina aqui!
            
Foi em um relance, que ele tirou a camisa, com alguma rudeza, como se estivesse se livrando de uma camisa de força.  Com as mãos, tentou amassá-la, como se fosse papel, e a jogou, com força, no chão.
            
— Nunca mais uso essa camisa! — bradou — Nunca mais uso nenhuma camisa alvinegra! Chega de sofrimento!
            
— E você consegue?! — ela arriscou.
            
— Claro! Essa camisa vai para o lixo!
            
A camisa alvinegra jazia, algo triste, repousada, na cerâmica fria.
           
 — Você não precisa fazer isso!
            
Ele não lhe deu ouvidos, foi até a cozinha e voltou com um saco preto.
            
— Isso vai para o lixo! — ele pegou a pobre camisa, e a enfiou no saco.
            
Mesmo discordando daquele ato, ela não tentou o impedir.

— Tem certeza? — apenas perguntou — Se bem me lembro, você pagou caro por ela!
            
Ele não respondeu, levou o saco para fora de casa e o depositou na lixeira da calçada.
            
— Não devia sair sem camisa. A noite está fria. — ela disse assim que ele retornou.

— Agora, preciso de um bom banho. — não dando atenção ao comentário.
            
— Amanhã, o lixeiro vai passar cedo!

— Tanto melhor!
            
Deitou-se após o banho. Ela cochilava quando ele lhe beijou o pescoço e lhe deu boa noite.
           
            

A manhã já havia chegado, quando ele acordou. Lembrou-se imediatamente da noite passada e uma lembrança fez com que se sentisse especialmente mal. Levantou-se em um pulo, e, de cueca e descalço, saiu de casa às pressas. Deitada, ela apenas esperou que ele retornasse.
            
— O lixeiro passou cedo... — disse, de maneira lúgubre, quando retornou.
            
— Está em cima da mesa, na dispensa. — ela, com voz de sono.
            
Não foi preciso que ela dissesse mais nada, ele foi até a dispensa. Retornou segurando a camisa alvinegra, amarrotada e marcada de suor. Não podia esconder uma expressão de alívio.
            
— Eu te amo, Júlia.
            
Ela apenas sorriu.

Anderson Lobo
(aprendiz de domador de palavras)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Almodóvar



— Quer dizer que nesse lugar são exibidos filmes cult? — ela apontou para o cinema do outro lado da rua.
— Somente filmes alternativos, que você nunca verá nas grandes salas de cinema — respondi como um verdadeiro cinéfilo.
— Legal, acho que nunca assisti a um filme cult! — ela disse, estampando sorriso cativante.
Dirigimo-nos para a entrada do cinema, onde estavam os cartazes dos tais filmes que estavam sendo exibidos. Lembro-me que havia alguns filmes nacionais e outros estrangeiros, dentre estes, um iraniano.
— Esses filmes são realmente bons, né? — ela me perguntou com um “quê” de dúvida.
— Geralmente são filmes inteligentes e densos! — respondi, sem saber que estava dizendo de forma eufemística que filmes cult são chatos — Nada contra filmes hollywoodianos mas, os alternativos são os melhores!
— Tudo bem... e a qual vamos assistir? — perguntou ela com sorriso ainda mais cativante.
— Olha, não li a sinopse de nenhum desses filmes. — fui sincero — Poderíamos simplesmente escolher, pelos cartazes! Só não escolha o filme iraniano, por favor!  Como todo bom filme iraniano, deve ser extremamente contemplativo!
Sorri do meu comentário que deveria ter sido engraçado.
— E que tal aquele? — ela apontou para um cartaz, a nossa esquerda, ao lado do cartaz do filme iraniano contemplativo.
— Almodóvar? — olhei para o cartaz que trazia a imagem de um menino com uma expressão emblemática — Já ouvi falar sobre esse diretor. É mexicano.
O nome do filme não fazia a mínima diferença e, logicamente, não conhecia nada sobre os filmes do Almodóvar e muito menos sobre sua nacionalidade. Aliás, tudo que sabia sobre filmes alternativos era que os filmes iranianos eram extremamente contemplativos.
— Uma ótima escolha! — respondi triunfalmente.
Comprei o par de ingressos na bilheteria, onde um homem que usava óculos de lentes grossas me atendeu com um sorriso amarelo. Encaminhamo-nos então para o hall de entrada da sala onde seria exibido o tal filme e nos sentamos em uma aconchegante poltrona. Estávamos a sós, a sessão ainda demoraria alguns minutos para começar.
— Gostei da sua iniciativa! — ela disse — Geralmente os caras que me convidam para sair me levam a lugares comuns e pouco criativos! Acho que vai ser interessante assistir a um filme alternativo com você.
Lembro-me de a ter olhado nesse momento com um ar de triunfo e sorri antes de dizer:
— Você é uma pessoa especial! — disse, sem rodeios. Ela me respondeu com um olhar amistoso e, naquele momento, tive certeza de que estava no caminho certo.
Havia qualquer coisa romântica no ar, e pensei em dizer algo para impressiona-la.  A chegada, entretanto, de dois rapazes dissipou um pouco daquela atmosfera. Percebi que eram gays e se sentaram em uma poltrona que estava de frente para nós.
Ela me lançou uma expressão do tipo: “Nenhum problema!” Retribui-lhe o olhar, no exato instante em que chegava uma senhora com ares de intelectual.
Outras pessoas chegaram e, após alguns minutos, nos vimos entre um público constituído basicamente por intelectuais, donos de estilos alternativos. “Naturalmente é um filme cult”, pensei, um pouco receoso, quando a porta da sala abriu.
Acomodamos-nos aproximadamente no centro da sala, a qual era pouco espaçosa, mas também aconchegante. Conversamos algumas banalidades até que, enfim, as luzes se apagaram. Após alguns trailers e anúncios, teve início o filme.
Desconfortavelmente... assim fui apresentado a Almodóvar. Não foram necessárias muitas cenas para que eu tivesse certeza de que o filme tratava de algum assunto extremamente espinhoso e constrangedor. Preciso apenas dizer que em determinado ponto da película, um padre molestava um menino, o menino do cartaz, creio eu.
Senti algo de aflição me preencher o estômago. Queria impressioná-la, mas não de forma tão contundente. Não que esperasse por tema açucarado em um filme cult, mas, enfim, não pensava que o tal filme fosse tão, digamos, polêmico. Será que o contemplativo filme iraniano teria sido melhor opção?
Tentava ser o mais natural possível, mas, confesso, não era fácil com aquele filme sobre padres pedófilos sendo exibido. Ligeiramente constrangido, olhava para ela obliquamente e não conseguia perceber se estava mais ou menos à vontade que eu.
Não que tivesse algum problema em discutir aquele tema indigesto. Sim, acredito que é preciso denunciar a pedofilia! Todavia, não queria tocar naquele assunto, naquele exato momento, dentro daquela sala de cinema, ao lado daquela bela morena.
E se ela pedisse para sair da sala? Talvez, em meu íntimo esse fosse o meu desejo. Mas, afinal, a sugestão de assistir a um filme cult  tinha sido minha. E se a intenção era impressioná-la, talvez estivesse conseguindo, de uma forma ou de outra.  Além do mais, ela havia concordado em assistir a um filme alternativo e, definitivamente, era o que estávamos fazendo.
O desfecho dessa ideia, convenhamos, pouco inspirada, foi a seguinte: saímos da sala em silêncio, e pouco fizemos para mudar aquela situação. Logicamente, eu não perguntei se ela havia gostado do filme. Porém, com alguma expectativa, arrisquei um convite:
— Vamos comer algo? Uma pizza, quem sabe?
Ela não respondeu, rebateu com seriedade:
— Não estou com fome. Sinceramente, acho que não estou preparada para filmes desse tipo.
Naquele momento, pensei novamente se o filme iraniano teria sido uma escolha mais sábia.

Anderson Lobo

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Tinha um Drummond Sobre a Mesa

Caricatura do poeta Carlos Drummond de Andrade feita pelo cantor e compositor Belchior





Tinha um Drummond sobre a Mesa 
*Sexto Lugar no "Prêmio Cataratas de Contos e Poesias de 2013"
** Crônica vencedora do "35° Concurso Literário da UNISO" (2016) 

Cheguei a casa, após certo dia de trabalho. Em cima da mesa da cozinha, um Drummond. Olhei com algum desdém e me dirigi ao quarto. Antes, passei pela sala, onde minha filha assistia à TV. Cumprimentei-a com um sorriso.
Voltei do quarto e acabei passando pela cozinha novamente. Ia para o banheiro. E tinha um Drummond... sobre a mesa. Apenas, passei meus olhos mecanicamente e fui tomar um bom e morno banho.
Lá pelas seis, Teresa chegou. Eu acabara de sair do banho.
— Teresa, tem um Drummond sobre a mesa... — disse imediatamente para minha esposa, após sauda-la com um beijo.
— Deve ser coisa da Julieta. — respondeu prontamente e sem nenhuma surpresa.
Em meu alheamento ao que soa porosidade e comunicação, fiquei em silêncio e acreditei ter colocado uma pedra naquele assunto. Assim, me distraí nas horas seguintes, lendo algo no jornal e ajudando Teresa no preparo de um jantar.
Jantamos lá pelas oito e aquele Drummond nos fez companhia, sobre a mesa, imóvel. Ninguém foi capaz de dizer uma palavra sobre aquilo. Teresa e eu, mastigando aquela comida com certa frieza e Julieta com algum olhar sonhador próprio de alguém que vive o auge da adolescência.
Passava das nove, quando fui para cama. Teresa ainda via algo na TV do quarto, quando me deitei ao seu lado. Mas, estranhamente, nenhum sono me veio. Rolei algumas vezes pela cama e, sem saber o porquê, me lembrei daquele Drummond novamente.
Percebendo minha inquietação, minha mulher me lançou um sutil olhar reprovador.
— Vou à cozinha beber alguma água! — eu lhe disse com certa culpa.
Passei pela sala onde Julieta conversava com alguém pelo celular. Não lhe dei muita atenção, embora ela sorrisse timidamente para mim. A cozinha estava escura. Sem rodeios, acionei o interruptor e a lâmpada acendeu. Meu coração disparou, pois Drummond continuava no mesmo lugar, como se me esperasse.
“E agora José?”, pensei uma vez. E, antes de pensar novamente, deixei-me levar pelo instinto. Puxei uma cadeira e me sentei. Encarei Drummond com certo olhar de reverência e o abri.
“Alguma Poesia”, só então percebi o título. E fiquei estático, como se não soubesse o que fazer. “Tenho apenas duas mãos... e um Drummond.”, disse em um sussurro, como se aquelas palavras fossem mágicas.
E meus olhos se aventuraram, com natural cautela, pelas linhas iniciais daquele Drummond. E, quando dei por mim, já me enveredava pelo sentimento do mundo contido naqueles versos.
Foi noite algo sublime. Naveguei por mares de poemas e confidências daquele itabirano. Li e reli quantas vezes me foi possível, até adormecer. E quando a madrugada lançou seus tentáculos pela janela da cozinha, eu me encontrava envolto em tantos arrebatamentos, que julguei ser apenas um sonho quando ouvi alguém me chamar.
— José! — era a voz de Teresa. — A noite esfriou!
Ergui os olhos, quando finalmente me dei conta de que minha esposa me estendia uma mão. Retribui, com um sorriso e a abracei com alguma volúpia, enquanto olhava, de soslaio, para Drummond em cima da mesa. E sentimento, algo de paz, tomou conta do meu peito.
“Só pode ser coisa da Julieta!”, pensei enquanto caminhávamos para o quarto.


Anderson Lobo (sonhador sempre)

Numinoso

Anoitecia, quando o mestre bateu à porta do mercador.   — Sou um velho monge, amigo da sabedoria. Venho de uma longa jornada rumo à minha mo...