terça-feira, 9 de agosto de 2011

Sobre Robert Johnson



Desenho: Robert Crumb


Dizem sobre o diabo...
o Mississippi e o blues.
Quem dirá que não foi profano?
Dizem que foi em uma encruzilhada...
Lá pelas tantas, um algoz e um trato.
O peito em chamas,
suas mãos dançando como nunca pelas cordas do violão.
Quem dirá que não?
Dizem que foi trágico...
Poeta,
por linhas tortas e curvas de mulheres,
desenhando
blues.
Caminhando com a sutileza de um ébrio
(vida e whisky envenenado).
Com a sina de um Fausto.
Com a incerteza de um errante.

Quem dirá que não foi sagrado? 


Anderson Lobo

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Paixão


 
 
Fogo na treva de uma noite calma.
Violenta lava que do peito aflora.
Vulcão irrompe da montanha aurora.
Desassossego invade corpo e alma.

Selva truculenta de sentimentos.
Em âmago não há contentamento
Que aplaque vontade de carne e seio
De alguém que aspira ao que lhe é alheio.

Seja temporal no deserto agrura.
Seja o céu, espetáculo e trovão.
Seja mar de desvario e loucura.

Seja rio entre cânion solidão.
Seja caudaloso elixir que cura.
Seja capaz de abrandar a razão.
 
Anderson Lobo
(cantor, compositor e poeta mineiro)

terça-feira, 31 de maio de 2011

Deus...

...inominável.
abissal estranhamento.
total arrebatamento.
imensurável.
remoto.
origem
e ocaso.
onírico e obra.

... criar e ceifar.
enlouquecer frente ao imenso.
mistério,
para além de nós.
para além dos templos.
o vento,
e o tempo.
pergunta,
sem resposta.
big-bang da aurora.
crepúsculo das eras.
céu,
morada de galáxias.
megatons,
cosmos e confins.
criatura,
à nossa imagem.
inquietude.

...vida e morte.
em profusão, amor.
em imensidão, terrível.
aquilo que somos.
onde iremos.
o que nunca fomos.
o nada
e o sempre.
o tudo
e o talvez.

Anderson Lobo
(admirador de cosmos)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

o barqueiro


  Tela da artista Léia Patrocínio


"Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio"

Heráclito

o barqueiro
o barqueiro cruza,
paciente,
o rio
ligando margens
e pessoas.
e são turvas as águas,
pelas quais navega!
estirpe dos iluminados,
venceu a solidão.
aprendendo com o rio
o nobre, e difícil, ofício de amar.

o barqueiro rompeu com o eterno,
quebrou o ciclo,
rumo à plenitude.
quando sorri,
é indício de absoluta paz.
santo,
comunga com o todo.
mansa,
sua embarcação,
tal qual sua alma.
pois, lição,
leva o rio dentro de si.
além,
o barqueiro é o rio,
cujas águas são a própria vida.

Anderson Lobo

terça-feira, 3 de maio de 2011

Lua (Para Luanda, por quem meu coração pulsa com sabor)


arte: Anderson Lobo


Lua, aos poetas e trovas, afeita.
Pulsando em cosmos, fulgente clarão.
Linda e além, forma onírica e perfeita
Ente sensual, santa inspiração.

Lua, como um servo à noite fiel
Canto teu ser na viva imensa treva.
Sobre montanha, uivando ao léu.
Contemplando teu corpo, negro de Eva.

Sê, Lua boa, dragão e astronauta.
Nua, sê aura a guiar o errante.
Teu enlevo, canção, que o bardo exalta.

Teu colo, reduto calmo ao infante.
E quando do dia, teu brilho falta,
Sê sonho terno na mente do amante.

Anderson Lobo
(apaixonado e ponto)


quarta-feira, 27 de abril de 2011

conversas e amigos




madrugadas tantas,
conversas santas
e animadas.
a loucura regadas.
lúcidas e acaloradas.
por vezes, sensatas.
profundas,
inexatas.

amigos!
desvairados
o suficiente.
sábios
abundantemente.
conselheiros
e divergentes.
ordeiros
e imprudentes.

munidos de bons copos de risos,
brindemos à amizade,
lar da compreensão!


Aos amigos: Raul, Lucas e Giovanni
(Obrigado pela sensatez, quando da minha loucura.
E quando da minha sensatez, obrigado pela loucura.)

Anderson Lobo
(aprendiz de domador de palavras)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Peregrino

foto: autor desconhecido

Os pés, descalços e feridos. A alma absorta em pensamentos incertos e dúvidas. A praia deserta e as águas do Mar da Angústia, escuras e frias. Agitadas, as ondas morriam com algum rebuliço na areia grossa.

Peregrino observava com horror, o crepúsculo.  Havia expressão fatídica em sua face pálida e a noite desabava, pesadamente sobre sua alma.

Espectro flutuava sobre as águas do mar e ouviu os clamores de seu âmago. Aproximando-se de Peregrino, deixou-se ficar ao seu lado.

— Amaste e adormeceste ao lado de fera. — sussurrou, sob forma de brisa gélida, no ouvido do Peregrino — Aprendeste com a entrega? Recebeste espinhos em lugar de flores?

Peregrino sentiu calafrio e não foi capaz de encarar Espectro. Novas palavras ecoaram. “Anoiteceste e jamais serás alvorada, Peregrino. Entrega-te a fera de uma vez! Tua busca não tem propósitos. Essa praia, onde prosternas, é o túmulo de tua última quimera!”

Peregrino então lançou o olhar em direção ao poente, onde alguns parcos raios solares ainda teimavam em irradiar alguma luz. Disse como em monólogo, vacilante, embora com firmeza suficiente para ser ouvido pelas águas do mar:

― Oh! Morte, zombeteira e poderosa, dona de incontáveis desgraças! Seduz-me com lábios gélidos, mas, creio, ainda é tempo de caminhar!

— Mas teus pés doem, Peregrino! E teu amor foi vão, assim como teu sacrifício! Estás tão só e teu ocaso vem vindo!

— Admito... desejo teu beijo.
           
— Sim, Peregrino! Sei que tu desejas o veneno de meus lábios!

— Mas ainda é tempo de caminhar...

— Então, insistes na tua própria derrota? — Espectro em tom irônico — Se queres sofrimento, teu verdugo o aguarda. Mas redenção somente eu posso lhe oferecer. 

— Há redenção, que não em teus braços! Haverá outros arrebóis!

Aterrador silêncio se fez, enquanto o céu era envolvido pela noite. Peregrino sorriu, como se estivesse a recuperar um pouco de sua lucidez.

— Aprende com tua loucura, Peregrino. Sê lúcido o suficiente para enfrentar a dor da existência.

Ante tais palavras, Espectro retomou ao mar e Peregrino pôde, enfim, apreciar algo de belo na noite que já era completa. “Eis a única dor que traz alguma luz: a existência!”, foi esse o pensamento que emergiu em sua mente, antes de adormecer sobre as areias calejadas que eram banhadas pelo Mar das Angústias.

Manhã surpreendeu Peregrino, dormindo. Mas este acordou a tempo de acompanhar os momentos finais do arrebol. “O mais edificante dos espetáculos!”

Anderson Lobo
(errante)


Numinoso

Anoitecia, quando o mestre bateu à porta do mercador.   — Sou um velho monge, amigo da sabedoria. Venho de uma longa jornada rumo à minha mo...