terça-feira, 31 de agosto de 2021

O Trato

A description... 

  Arte: Robert Crumb
 

 

Era meia-noite.


— Você tem um belo violão! — ele me disse. Tinha modos polidos e voz calma. Usava um terno branco e sapatos engraxados.


— É meu único bem... além da alma... — a noite era completa e uma lua inchada iluminava a encruzilhada deserta. Quatro caminhos partiam em linha reta daquele ponto e se perdiam nas entranhas da noite. Lembro-me de um vento frio, levantando poeira e levando algum aroma de medo ao meu âmago.


Ele me dirigiu um sorriso sedutor, sabia que eu iria até o fim. A aba de seu belo chapéu não permitia que eu contemplasse seus olhos, mas, se bem me lembro, eles brilhavam em um tom rubro.


— Você quer tocar o blues, garoto?


— É tudo que quero.


— Pagará o preço?


Fiz um gesto afirmativo com a cabeça e nos sentamos sobre uma pedra. Ofereci-lhe o violão. 


Ele afinava as cordas, enquanto o observava, hipnotizado. Uma atmosfera opressora penetrava meus pulmões.


Então ele tocou o blues. Eram acordes, como jamais havia ouvido. E eram mãos ágeis, as que percorriam o instrumento.


— Bom negócio! — ele me entregou o instumento e, sem anunciar, se levantou.


Não fui capaz de dizer mais nada. Apenas o observei desaparecer nas trevas da noite. Fiquei estático por algum tempo, que não posso precisar. E só então tomei coragem para arriscar alguns acordes.


Acho que amanhecia quando coloquei o violão nas costas e deixei a encruzilhada. Algumas pessoas passaram por mim, quando seguia pela estrada, que me levaria ao norte. Lançavam olhares para mim, como quem olha para um pobre diabo. Mal sabiam a verdade...

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Girando



 Girando 
(Canção do disco "Laniakea")

A vida da gente é fogo que um dia vai se apagar.
Frágil, titubeia, entre as voltas que o mundo dá.
O tempo da gente é o instante de um breve pulsar.
O corpo da gente fragmento de poeira estelar.

Gira o mundo que gira, voa o tempo que voa.
Tudo que um dia vai se transformar.
 
Dia e noite, berço e morte.
Ciclo, início, meio e fim.
Terra e céu, fogo e água. 
Templo e dança, drama, festim.

Gira que gira, girando, gira sem parar...

A vida da gente é o milagre de um despertar.
Rara, o momento de uma exceção de tudo que há.
O tempo da gente é regido pelo eterno girar.
No ritmo de uma dança cósmica interestelar.

Gira o mundo que gira, voa o tempo que voa.
Começa e termina no mesmo lugar.

Dia e noite, berço e morte.
Ciclo, início, meio e fim.
Terra e céu, fogo e água.
Templo e dança, drama, festim.

Gira que gira, girando, gira sem parar...


https://www.youtube.com/watch?v=WIl3TAfcLTg&list=OLAK5uy_m7FkBHKwptAmAa9TK-vH85eoceaFICLbs&index=3&t=0s

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Os zangbetos



  Talvez eu não consiga explicar os zangbetos,
Embora não acredite neles.
Não compreendo Deus.
Somos estranhos.
Falamos línguas diferentes.
Não sei explicar a dança do sol,
Embora milhares digam que ele dançou.
Também não creio que eram os deuses astronautas...
E, embora eles admirem os Budas,
Ainda estou tão distante do nirvana!
Quem sabe um dia?
Por enquanto, eu estou preso ao que creio ser real,
Tão profano aos ritos.
Aos dogmas das tantas crenças.
No conforto de meu ceticismo,
No quarto fechado de minha razão.

Mas me sinto sagrado,
Ainda que ínfimo.
Pois eu creio na ressurreição,
Diária,
Quando dos arrebóis e crepúsculos.
Eu, que medito com os ponteiros do relógio.
Que consagro os sons casuais dos dias.
Que desenho meus espíritos em minhas palavras.
Que oro ao cosmos, mudo.
Venerando os fragmentos de estrelas, de onde viemos.
Rogando ao meu corpo frágil que não sofra além do que suporta.
Pedindo ao acaso que não seja acometido pela bondade alheia.
Que não seja vítima de minha própria maldade.

Pois eu não temo o inexplicável,
Nem o metafísico.
Temo a influência dos mortos e seus excessos que vivem nos vivos.
Os tantos demônios que rondam meu âmago.
As tentações que me fazem humano e suscetível aos vícios.
Eu temo os meninos santos,
Que erguem as clavas de seus pais.
Aqueles que creem.
Os silêncios daqueles que ocupam os templos
E seus olhares inquisidores.
Os que falam em nomes de seus deuses intransigentes.
Os que crucificam aqueles que lhes são estranhos.
Eu não temo Deus, os zangbetos, os profetas, os messias...
Mas, embora não os compreenda, sinto suas consequências.
Eu temo, sobretudo, seus filhos asseclas.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Como diria Neil deGrasse Tyson




Um Einstein está morrendo de fome na Etiópia. 

Um Galileu nasceu em uma manjedoura, no Haiti.

Uma Vera Rubin observa as estrelas dos escombros na Síria.

Uma Marie Curie faz experimentos no coração de Burundi.

 

Um Stephen Hawking foi atingido por uma bala perdida, em San Salvador.

Katherine Johnson foi vítima de feminicídio em Calcutá. 

Charles Darwin perambula pela cracolândia em São Paulo.

Newton foi atingido por um homem bomba em Bagdá.

 

Neils Bohr foi alvejado pela milícia no Rio de Janeiro.

Gertrude Elion foi calada pelo Talibã no Afeganistão. 

Copérnico trabalha numa mina de carvão na China.

Edwin Hubble assaltou um gringo numa favela no Gabão.

 

Um Kepler vende bala no sinal no subúrbio de Caracas.

Uma Jane Goodall morreu ao dar a luz em uma vila em Gana.

Rosalind Franklin se prostitui pelas ruas de Bangcoc.

Max Planck foi morto por um traficante em Tijuana.

 


quarta-feira, 7 de junho de 2017

O Estrangeiro



Ele andava, pelas calçadas de sua cidade natal. Seus olhos percorriam-na, ora perplexos, ora infelizes. Havia casas luxuosas, protegidas por muros feios e sujos, em frente dos quais, homens se serviam de banquetes vindos das latas de lixo. Havia varandas imponentes, onde, em bancos de mármore, sentavam-se homens de ternos garbosos e sorrisos dourados, escoltados por soldados que seguravam clavas.

Enveredava-se, como um estranho, pelas vias, adentrando cada vez mais os labirintos de pedra e piche.

Havia lojas, em cujas fachadas, frutas podres eram trocadas por metais reluzentes. Casacos e sapatos feitos de pele de animais, expostos em barracas eram vendidos por homens, que berravam copiosamente. Passeavam, deslumbradas, mulheres elegantes, cujos odores nauseabundos eram disfarçados por perfumes caros. Bares e bêbados se equilibravam pelas calçadas de uma suntuosa avenida, em cujo interior corria um córrego pútrido.

Nas ruínas do que um dia fora um anfiteatro, havia uma arena, onde um grupo assistia a uma luta de gladiadores. Havia falas acaloradas e apostas. Rubro era o chão, onde as pessoas se amontoavam para assistir ao espetáculo.

Em uma praça, havia um homem dos templos, que falava a uma multidão. Discursava com veemência, segurando um livro empoeirado. Saliva grossa e violentas palavras saíam, sagradas, de sua boca. Venerando aquele discurso, cantores empunhavam liras, entoando, com fé, uma ode à intolerância. Crédulos ouviam, com êxtase, promessas e ameaças do homem dos templos.

No centro da cidade, havia construções vultosas que abrigavam as moradas de políticos, nobres e catedráticos. Prédios envelhecidos, empoeirados.

Em frente a um palácio imponente, de fachada corroída pela ação do tempo, acontecia um julgamento. Gritos ensandecidos eram dirigidos a uma mulher, que estava exposta, nua, sobre um palanque.
 
Entre silêncios e berros, uma voz ressoava, potente e terrível, acusando formalmente a mulher. Pertencia a um orador de toga, cujo discurso soava eloquente para a multidão presente.
 
A mulher nua, dona de belo e jovem corpo, mantinha o olhar fixo em algum ponto para além da turba, alheia às acusações que lhe eram dirigidas. Não resignado, era o olhar de alguém que desafiava a mão do destino que inevitavelmente cairia sobre si.
 
Angustiado, ele se sentiu só, no coração da urbe, bela dentre as mais ricas. Não mais caminharia. Tentava, em vão, olhar para as pessoas, mas já não tinham rostos. Havia borrões onde deveriam existir expressões humanas...

terça-feira, 28 de março de 2017






Sê flor de lótus,
Olha os lírios do campo!
Bebe da serenidade,
Vive da paz do céu anil!
Alimenta-te da brisa que adentra o peito.
Afaga a vida que te convida a bailar,
Dança e sê bruma junto com as folhas de outono.
Sente a alegria da canção da Mãe-Terra.
Canta o renascimento da fênix.
Sente, pois, a manhã, o sol e suas consequências.
Sê, acima de tudo, milagre.
E voa até onde o amor possa te levar.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Terapia Ortográfica


 

 

(crônica publicada na edição 12 da Revista Avessa: http://revistavessa.com/2016/11/revista-avessa-no-12/)


A terapia ortográfica em grupo acontecia todas as terças, à noite. Costumavam participar letras, sílabas, palavras, sinais de pontuação, enfim quase toda fauna da digníssima língua portuguesa. Sentavam em círculo em uma sala arejada, e desabafavam seus dilemas existenciais, sob a coordenação do, sempre cordato, “ponto final”.

— Sou vítima de xenofobia — o “W” desabafava — Nunca fui plenamente integrado pela língua portuguesa.

— Taxam-me de complicado! — o “que” se manifestava — Mas não sou complicado, apenas incompreendido! Entendem?

O “ponto final” ouvia com atenção, supervisionando as falas, sempre atencioso, calmo e paciente.

— Não sou pronunciado corretamente, constantemente suprimem minhas letras... — lamentou-se, certa vez, o pronome “você” — Em tempos áureos já fui conhecido como “Vossa Mercê”, mas hoje, referem-se a mim simplesmente como “cê”. Isso é ultrajante!

— Isso ocorre o tempo todo? — perguntou o “ponto final”.

— Não... depende do falante. Mas em alguns lugares fazem isso com muita naturalidade...

— Quer saber? — interrompeu o “H” com impaciência — O meu caso é muito pior! Nem tenho som próprio. Em boa parte do tempo, sou usado como mero adorno para vogais! E, sinceramente, estou farto de me juntar ao “C” para formar um som de “X”. E tudo isso para satisfazer os caprichos da onipresente norma culta!

— Calma, colega! — veio o “ponto final”, todo tranquilo — Não podemos culpar a norma culta. Ela existe para nos orientar!

— Orientar? Mas às vezes ela gera tanta confusão! — foi a vez do “hífen” se pronunciar.

— Norma Culta?! — disse, com desdém, a expressão “a gente vamos”— Faça como eu, assuma de vez sua relação com o coloquial. Só assim, eu pude ser aceita. E olha que alguns gramáticos já não me ignoraram!

— Sacripanta!!! — o faustoso “vós” não pôde deixar de exclamar — Abomino essa política de inclusão, a que somos submetidos! Uma expressão desairosa como essa aí, ser aceita?

— Olha, queridinho! Saiba que sou muito mais popular que você.

— Popular?! — o “vós”, com o dedo em riste — Isso não muda o fato de que és uma das responsáveis pela decadência da língua portuguesa! Gente da tua laia não deveria se misturar conosco. Não passas de uma grande aberração!

— ABERRAÇÃO? — Os ânimos se exaltaram naquele momento e houve o início de uma pequena discussão ortográfica. Houve até quem evocasse as indesejáveis palavras de baixo calão. E foi com algum trabalho que o, sempre inquestionável, “ponto final” conseguiu acalmar os presentes.

— Ordem, caríssimos! Não vamos nos esquecer de que alguns colegas ainda não se pronunciaram. “Trema”, você quer dizer alguma coisa?

— Eu sou a “trema” e atualmente não tenho mais função na língua portuguesa. — Desabou em pranto a pobrezinha e só foi parar quando alguém adentrou a sala, sem bater na porta. Todos olharam para o recém-chegado, que lançou um olhar confuso aos presentes.

— Desculpe... — disse o “zero à esquerda”, um tanto ruborizado — É aqui a terapia em grupo para números?

— Não, amigo! — disse o “ponto final” — Na sala ao lado.

— Coitado! — cochichou o “que” — Esse aí deve estar na mesa situação do “dois de paus”!

Numinoso

Anoitecia, quando o mestre bateu à porta do mercador.   — Sou um velho monge, amigo da sabedoria. Venho de uma longa jornada rumo à minha mo...