quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Aldeia Global

O mundo adentra meu universo
Em ondas incessantes de informações.
Torrente de imagens
Sons, culturas, etnias e contradições.
A beleza destruída pela força da grana
O playground bilionário sob o sol, em Dubai
A sangrenta guerra civil na nação africana
O arranha-céu vertiginoso erguido em Xangai.
O mundo é rico, o mundo pobre
A humanidade, uma aldeia global,
Utopia da complexa rede que nos une,
Restrita apenas ao campo virtual.
No ciberespaço sem limites, o mundo está em todo lugar
Mas não ultrapasse seu universo.
Não é permitido tocar
Finja que está interagindo.
Contente-se em apenas olhar.

Anderson Lobo
(pescador de estrelas domador de palavras e alquimista nas horas vagas)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Revolução




A revolução virá.
Virá da utopia dos loucos.
Virá da força contida dos povos.
Dos oprimidos
despertos do sono do comodismo.
Virá por parte dos humildes,
das mãos calejadas
e dos puros corações!

A revolução soará contra os déspotas!
Surgirá dos resquícios das senzalas.
Virá dos gritos dos mortos,
infalível,
como a mais letal das vidas.

A revolução será profana!
Contra os ditames e dogmas!
Varrerá preconceitos,
rugindo aos moradores das redomas.
Afrontando a hipocrisia dos caducos
e dos coronéis,
velhos e cansados.

A revolução será vendaval,
revirando as sólidas estruturas dos arranha-céus.
Fazendo do que é sólido, pó.
Erigindo novo tempo.
Conclamando os homens a serem, enfim,
humanos.

Anderson Lobo
(pescador de estrelas, domador de palavras e alquimista nas horas vagas)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Leia a Sinopse Antes de Assistir a um Filme do Almodóvar



— Quer dizer que nesse lugar são exibidos filmes cult? — ela apontou para o cinema do outro lado da rua.
— Somente filmes alternativos, que você nunca verá nas grandes salas de cinema — respondi como um verdadeiro cinéfilo.
— Legal, acho que nunca assisti a um filme cult! — ela disse, estampando sorriso cativante.
Dirigimo-nos para a entrada do cinema, onde estavam os cartazes dos tais filmes que estavam sendo exibidos. Lembro-me que havia alguns filmes nacionais e outros estrangeiros, dentre estes, um iraniano.
— Esses filmes são realmente bons, né? — ela me perguntou com um “quê” de dúvida.
— Geralmente são filmes inteligentes e densos! — respondi, sem saber que estava dizendo de forma eufemística que filmes cult são chatos — Nada contra filmes hollywoodianos mas, os alternativos são os melhores!
— Tudo bem... e a qual vamos assistir? — perguntou ela com sorriso ainda mais cativante.
— Olha, não li a sinopse de nenhum desses filmes. — fui sincero — Poderíamos simplesmente escolher, pelos cartazes! Só não escolha o filme iraniano, por favor!  Como todo bom filme iraniano, deve ser extremamente contemplativo!
Sorri do meu comentário que deveria ter sido engraçado.
— E que tal aquele? — ela apontou para um cartaz, a nossa esquerda, ao lado do cartaz do filme iraniano contemplativo.
— Almodóvar? — olhei para o cartaz que trazia a imagem de um menino com uma expressão emblemática — Já ouvi falar sobre esse diretor. É mexicano.
O nome do filme não fazia a mínima diferença e, logicamente, não conhecia nada sobre os filmes do Almodóvar e muito menos sobre sua nacionalidade. Aliás, tudo que sabia sobre filmes alternativos era que os filmes iranianos eram extremamente contemplativos.
— Uma ótima escolha! — respondi triunfalmente.
Comprei o par de ingressos na bilheteria, onde um homem que usava óculos de lentes grossas me atendeu com um sorriso amarelo. Encaminhamo-nos então para o hall de entrada da sala onde seria exibido o tal filme e nos sentamos em uma aconchegante poltrona. Estávamos a sós, a sessão ainda demoraria alguns minutos para começar.
— Gostei da sua iniciativa! — ela disse — Geralmente os caras que me convidam para sair me levam a lugares comuns e pouco criativos! Acho que vai ser interessante assistir a um filme alternativo com você.
Lembro-me de a ter olhado nesse momento com um ar de triunfo e sorri antes de dizer:
— Você é uma pessoa especial! — disse, sem rodeios. Ela me respondeu com um olhar amistoso e, naquele momento, tive certeza de que estava no caminho certo.
Havia qualquer coisa romântica no ar, e pensei em dizer algo para impressiona-la.  A chegada, entretanto, de dois rapazes dissipou um pouco daquela atmosfera. Percebi que eram gays e se sentaram em uma poltrona que estava de frente para nós.
Ela me lançou uma expressão do tipo: “Nenhum problema!” Retribui-lhe o olhar, no exato instante em que chegava uma senhora com ares de intelectual.
Outras pessoas chegaram e, após alguns minutos, nos vimos entre um público constituído basicamente por intelectuais, donos de estilos alternativos. “Naturalmente é um filme cult”, pensei, um pouco receoso, quando a porta da sala abriu.
Acomodamos-nos aproximadamente no centro da sala, a qual era pouco espaçosa, mas também aconchegante. Conversamos algumas banalidades até que, enfim, as luzes se apagaram. Após alguns trailers e anúncios, teve início o filme.
Desconfortavelmente... assim fui apresentado a Almodóvar. Não foram necessárias muitas cenas para que eu tivesse certeza de que o filme tratava de algum assunto extremamente espinhoso e constrangedor. Preciso apenas dizer que em determinado ponto da película, um padre molestava um menino, o menino do cartaz, creio eu.
Senti algo de aflição me preencher o estômago. Queria impressioná-la, mas não de forma tão contundente. Não que esperasse por tema açucarado em um filme cult, mas, enfim, não pensava que o tal filme fosse tão, digamos, polêmico. Será que o contemplativo filme iraniano teria sido melhor opção?
Tentava ser o mais natural possível, mas, confesso, não era fácil com aquele filme sobre padres pedófilos sendo exibido. Ligeiramente constrangido, olhava para ela obliquamente e não conseguia perceber se estava mais ou menos à vontade que eu.
Não que tivesse algum problema em discutir aquele tema indigesto. Sim, acredito que é preciso denunciar a pedofilia! Todavia, não queria tocar naquele assunto, naquele exato momento, dentro daquela sala de cinema, ao lado daquela bela morena.
E se ela pedisse para sair da sala? Talvez, em meu íntimo esse fosse o meu desejo. Mas, afinal, a sugestão de assistir a um filme cult  tinha sido minha. E se a intenção era impressioná-la, talvez estivesse conseguindo, de uma forma ou de outra.  Além do mais, ela havia concordado em assistir a um filme alternativo e, definitivamente, era o que estávamos fazendo.
O desfecho dessa ideia, convenhamos, pouco inspirada, foi a seguinte: saímos da sala em silêncio, e pouco fizemos para mudar aquela situação. Logicamente, eu não perguntei se ela havia gostado do filme. Porém, com alguma expectativa, arrisquei um convite:
— Vamos comer algo? Uma pizza, quem sabe?
Ela não respondeu, rebateu com seriedade:
— Não estou com fome. Sinceramente, acho que não estou preparada para filmes desse tipo.
Naquele momento, pensei novamente se o filme iraniano teria sido uma escolha mais sábia.

Anderson Lobo