sexta-feira, 9 de maio de 2014

Justiceiros



Foi o tempo da desconfiança.
Tempo em que o diálogo foi abolido.
Das sentenças executadas pelas próprias mãos.
Quando da razoabilidade das clavas.
Quando da autoridade dos gritos.

Foi o tempo da intolerância desmedida.
Quando da impaciência,
Do embrutecimento.
Quando o outro se tornou inimigo.
Quando o ódio ganhou as ruas.

Foi o tempo em que meninos entoaram cânticos de guerras.
Tempo das casernas,
Erguidas pelos guetos e mansões.
Época das trincheiras,
Abertas em becos e em bulevares luxuosos.
Tempo de bestas e projéteis.
De fumaça e de fogo.

Foi o tempo dos castelos e calabouços.
Dos reis, caducos.
Da nobreza, reclusa.
Das castas confinadas em vilas.
Das cabeças decapitadas,
Expostas sobre muros de condomínios fechados.
Do espetáculo da barbárie em praças públicas.
E de cavaleiros vigilantes,
Sempre atentos àquilo que julgavam desarmônico.

Foi o tempo da fúria.
Da carnificina.
Quando do sangue,
Esvaindo de corpos inertes.
Tempo em que se desfez o verniz de civilidade,
Escorrendo pelas sarjetas das vias das brutais cidades.
E de excessos e medos.

Foi tempo da lei
Da retaliação.
Tempo da fera.
Tempo de guerra.
Da insana justiça.
E da destruição de qualquer humanidade.


Anderson Lobo
(Aprendiz de Domador de Palavras)