sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

sobre o pôr-do-sol


foto: Julyana Thandara

bem ali,
como uma pintura.
dança singela
de cores e absurdos.
céu e tons.
toque de algo eterno,
como um sonho.
algo sobre a leveza.
o fim e o nascimento.
dia, noite e tão além.
Divinamente,
redenção.
transformação.
lampejo de algo transcendental.
aquarela
e mãos divinas.
como adentrar,
com entusiasmo,
na morada do imenso.

Ah! se todos soubessem do pôr-do-sol e sua lição!

Anderson Lobo 
(apreciador do pôr-do-sol)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Tempo de luz


Houve certo lume.
Multicolor, a invadir almas.
E, noite bela, houve milagre.
Nascimento
de grande esperança.

Foi canção.
Coro, em uníssono,
a entoar ode
à humanidade.
Seres benévolos
em movimentos celestes.
Foi sagrada dança.

Assim, foi divino.
Deu-se em sonho.
Além, foi sublime.
Foi lampejo do que poderia ser somente luz.
Céu salpicado de boa vontade,
foi tempo de bem-aventurança.

Anderson Lobo
(pescador de estrelas domador de palavras e cantador nas horas vagas)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Origami



Eis que, em minhas andanças pelo mundo, encontrei, em uma praça de uma cidade cujo nome não me lembro, um sábio monge. Assim que o reconheci, me sentei ao seu lado para pedir algum conselho que só os sábios podem oferecer.

— Gostaria de ouvir algumas palavras tuas! — disse após cumprimentá-lo com reverência.

— Dize, caro jovem! — ele me fitou sorrindo — De que maneira minhas palavras podem te ajudar?

— Fala-me sobre o verdadeiro sentido da vida. — disse, sem delongas.

O sábio me olhou, novamente sorrindo:

— Caro amigo, somente tu podes responder essa pergunta.

— Como assim? — indaguei com algo de desapontamento no tom da minha voz.

O monge não me respondeu imediatamente. Retirou de seu alforje duas folhas brancas, depois me deu uma e começou a dobrar a outra.
 
— Já ouviste falar no origami? — perguntou, então.

— Sim, é uma técnica oriental que consiste em dobrar uma folha até que esta tome a forma de um animal ou de uma figura qualquer.

— Exatamente. É uma técnica milenar, praticada por homens sábios e pacientes. — depois de um momento de pausa, o monge disse: — Tua vida é tal qual essa folha que tens em tuas mãos.
 
— O que?! — não havia compreendido aquela parábola.

— Tu decides que figura construir, meu jovem! — esclareceu o sábio — Cada dobra é uma decisão que tomas e tu escolhes se no final a folha se transformará em um pássaro, em um barco ou em um coelho.

Naquele momento comecei a entender suas palavras.

— Cada dobra deve ser feita com cuidado, pois se dobras errado, a folha poderá ficar marcada. E somente aqueles que ousam fazer as mais arriscadas dobraduras conseguem os mais interessantes resultados.

Após tais palavras, o sábio me mostrou um coelho feito com a folha que estava dobrando.

Era uma manhã ensolarada. Sentado ao lado de um monge iluminado, fiquei dobrando uma folha em branco até que um pássaro surgiu das dobras que fiz. E eram sábias as palavras daquele velho homem.


Anderson Lobo
(sonhador sempre)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Ciclo



Éramos gotas,
em meio a enxurradas
truculentas.

Fomos levados a rio,
onde aprendemos
algo sobre a
arte da pesca.

Desaguamos em mar,
onde navios nos saudaram
com seus apitos graves.

Continuamos gotas até
a imensidão nos engolir.

Assim, voltamos ao céus.

Anderson Lobo
(pescador de estrelas, domador de palavras e cantador nas horas vagas)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Eles

Eles se amaram,
como nunca.
Mas a primavera o convidou a sonhar.
E ele partiu
em uma tarde úmida.
Ela, então, sentiu vento lhe açoitar o rosto.
“O amor é violência!
Eleva-nos ao céu
e arrebata-nos para o limbo da alma.”

Ela sorria,
enquanto ele se embrenhava pela tormenta.
Sentiram-se transcendentais.
E nunca foram tão humanos!

Anderson Lobo

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O Amor

Estavam no sopé da montanha, sentados em uma das margens do regato, sob a sombra generosa de imponente salgueiro.

— O que tens a dizer sobre o amor? — perguntou ela.

O trovador não respondeu imediatamente. Sorriu. Os olhos, voltados para o regato, cujas águas límpidas nasciam no alto da montanha.

— Muito do que sei sobre o amor, aprendi com o regato. — disse com quietude no tom de sua voz — Observa como essas águas seguem com obstinação seu curso. Vê como atravessam essa paisagem e avançam rumo a paragens desconhecidas. Vê como elas correm, ora com intrepidez, ora com serenidade.

A jovem desviou seu olhar para o regato e o trovador continuou:

— Desconheço o destino do regato, embora creia que suas águas corram em direção ao mar ou ao lago! Talvez deságuem no grande rio ou talvez adentrem as entranhas da terra para ressurgirem em outro ponto.

“Quem sabe, porém não morram no deserto estéril para, mais tarde, retornar ao solo sob a forma de chuva? São tantos os caminhos que levam ao mar! E tantos os terrenos e obstáculos naturais que essas águas precisam enfrentar!”

Da montanha, o vento trouxe frio, mas o trovador sentiu quentura no coração.
 
— Observa o regato — disse após respirar profundamente — e aprenderás muito sobre o amor e seus caminhos.

Ela também sentiu quentura no coração.

— Deixa-te levar pelas águas do regato! — completou o trovador — Saberás que o amor não se deixa guiar. Ele guia.

Anderson Lobo
(sonhador sempre)

domingo, 5 de setembro de 2010

poeta

poeta,

lança teu canto torto.
e desafia os passantes
com versos dissonantes.


poeta,
liberta-te da peia,
do desencanto!
e faze das palavras,
tua mais saudável ceia.

Anderson Lobo

Foto: Filipe Marks

Poesia na Praça Sete - 4º Edição:



terça-feira, 24 de agosto de 2010

Tinha um Drummond sobre a mesa

Caricatura do poeta Carlos Drummond de Andrade feita pelo cantor e compositor Belchior





Tinha um Drummond sobre a Mesa 
*Sexto Lugar no "Prêmio Cataratas de Contos e Poesias de 2013"
** Crônica vencedora do "35° Concurso Literário da UNISO" (2016) 

Cheguei a casa, após certo dia de trabalho. Em cima da mesa da cozinha, um Drummond. Olhei com algum desdém e me dirigi ao quarto. Antes, passei pela sala, onde minha filha assistia à TV. Cumprimentei-a com um sorriso.
Voltei do quarto e acabei passando pela cozinha novamente. Ia para o banheiro. E tinha um Drummond... sobre a mesa. Apenas, passei meus olhos mecanicamente e fui tomar um bom e morno banho.
Lá pelas seis, Teresa chegou. Eu acabara de sair do banho.
— Teresa, tem um Drummond sobre a mesa... — disse imediatamente para minha esposa, após sauda-la com um beijo.
— Deve ser coisa da Julieta. — respondeu prontamente e sem nenhuma surpresa.
Em meu alheamento ao que soa porosidade e comunicação, fiquei em silêncio e acreditei ter colocado uma pedra naquele assunto. Assim, me distraí nas horas seguintes, lendo algo no jornal e ajudando Teresa no preparo de um jantar.
Jantamos lá pelas oito e aquele Drummond nos fez companhia, sobre a mesa, imóvel. Ninguém foi capaz de dizer uma palavra sobre aquilo. Teresa e eu, mastigando aquela comida com certa frieza e Julieta com algum olhar sonhador próprio de alguém que vive o auge da adolescência.
Passava das nove, quando fui para cama. Teresa ainda via algo na TV do quarto, quando me deitei ao seu lado. Mas, estranhamente, nenhum sono me veio. Rolei algumas vezes pela cama e, sem saber o porquê, me lembrei daquele Drummond novamente.
Percebendo minha inquietação, minha mulher me lançou um sutil olhar reprovador.
— Vou à cozinha beber alguma água! — eu lhe disse com certa culpa.
Passei pela sala onde Julieta conversava com alguém pelo celular. Não lhe dei muita atenção, embora ela sorrisse timidamente para mim. A cozinha estava escura. Sem rodeios, acionei o interruptor e a lâmpada acendeu. Meu coração disparou, pois Drummond continuava no mesmo lugar, como se me esperasse.
“E agora José?”, pensei uma vez. E, antes de pensar novamente, deixei-me levar pelo instinto. Puxei uma cadeira e me sentei. Encarei Drummond com certo olhar de reverência e o abri.
“Alguma Poesia”, só então percebi o título. E fiquei estático, como se não soubesse o que fazer. “Tenho apenas duas mãos... e um Drummond.”, disse em um sussurro, como se aquelas palavras fossem mágicas.
E meus olhos se aventuraram, com natural cautela, pelas linhas iniciais daquele Drummond. E, quando dei por mim, já me enveredava pelo sentimento do mundo contido naqueles versos.
Foi noite algo sublime. Naveguei por mares de poemas e confidências daquele itabirano. Li e reli quantas vezes me foi possível, até adormecer. E quando a madrugada lançou seus tentáculos pela janela da cozinha, eu me encontrava envolto em tantos arrebatamentos, que julguei ser apenas um sonho quando ouvi alguém me chamar.
— José! — era a voz de Teresa. — A noite esfriou!
Ergui os olhos, quando finalmente me dei conta de que minha esposa me estendia uma mão. Retribui, com um sorriso e a abracei com alguma volúpia, enquanto olhava, de soslaio, para Drummond em cima da mesa. E sentimento, algo de paz, tomou conta do meu peito.
“Só pode ser coisa da Julieta!”, pensei enquanto caminhávamos para o quarto.


Anderson Lobo (sonhador sempre)