quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A Camisa Alvinegra





Bem-aventurados os que não entendem nem querem entender de futebol, pois deles é o reino da tranquilidade. Carlos Drummond de Andrade



Ele chegou pelas tantas, depois da meia-noite. Ela estava na cama, ainda acordada, lendo um livro.

— Você soube, né?!

Ela apenas balançou a cabeça em sinal afirmativo, enquanto fechava o livro.

— Passava dos quarenta do segundo tempo... Estávamos vencendo... Mas tomamos dois gols, seguidos. Dá para acreditar?
            
— Ouvi alguns gritos, fogos... — um leve cheiro de álcool lhe veio ao nariz — Bebeu?

— Um pouco...


— Um pouco?


— Tínhamos que chorar nossas mágoas. Você sabe... estávamos com as mãos no caneco, mas levamos dois gols em cinco minutos!
            
Ela se sentou na cama e ele se manteve em pé, onde estava. Ele trazia uma expressão de amargura e ela, de compaixão. Ela, de camisola branca e ele usando a camisa alvinegra, suada.
            
— Íamos finalmente ser campeões, estávamos muito perto. — entre um longo suspiro — Ninguém na arquibancada acreditou quando fizeram o segundo gol, um cochilo da zaga...
            
— Não devia sofrer tanto por isso!
            
— Você não entende, não é?!
            
— Não, eu não entendo o porquê de tanta angústia. É apenas futebol!
            
Ele não lhe deu atenção. Continuou estático, e como em um monólogo:
            
— Esse ano as coisas pareciam diferentes. O time estava entrosado, uma ótima campanha, a torcida correspondendo... Mas foram necessários apenas cinco minutos! Dois gols no finalzinho da partida? Isso é demais para meu coração alvinegro!
            
Ele não conteve as lágrimas.
            
— E você me diz que é apenas futebol? — conseguiu dizer.
            
Sentindo-se algo culpada, ela se levantou e, o abraçando:
            
— Venha, vamos dormir.
            
Aos prantos, feito menino, ele se entregou àquele abraço quente e afundou a cabeça no ombro que lhe era oferecido. Com a voz engasgada:
            
— Você tem razão... — Eu não devia sofrer tanto por isso. Temos coisas mais importantes com o que nos preocupar... mas estivemos tão perto de conquistar o título! Acho que nunca teremos outra chance!
            
— Não diga isso! — ela lhe afagava as costas com carinho — Quem sabe no ano que vem?
            
— O que?! — levantou a cabeça e repeliu o abraço, com alguma agitação — Ano que vem? Isso termina aqui!
            
Foi em um relance, que ele tirou a camisa, com alguma rudeza, como se estivesse se livrando de uma camisa de força.  Com as mãos, tentou amassá-la, como se fosse papel, e a jogou, com força, no chão.
            
— Nunca mais uso essa camisa! — bradou — Nunca mais uso nenhuma camisa alvinegra! Chega de sofrimento!
            
— E você consegue?! — ela arriscou.
            
— Claro! Essa camisa vai para o lixo!
            
A camisa alvinegra jazia, algo triste, repousada, na cerâmica fria.
           
 — Você não precisa fazer isso!
            
Ele não lhe deu ouvidos, foi até a cozinha e voltou com um saco preto.
            
— Isso vai para o lixo! — ele pegou a pobre camisa, e a enfiou no saco.
            
Mesmo discordando daquele ato, ela não tentou o impedir.

— Tem certeza? — apenas perguntou — Se bem me lembro, você pagou caro por ela!
            
Ele não respondeu, levou o saco para fora de casa e o depositou na lixeira da calçada.
            
— Não devia sair sem camisa. A noite está fria. — ela disse assim que ele retornou.

— Agora, preciso de um bom banho. — não dando atenção ao comentário.
            
— Amanhã, o lixeiro vai passar cedo!

— Tanto melhor!
            
Deitou-se após o banho. Ela cochilava quando ele lhe beijou o pescoço e lhe deu boa noite.
           
            

A manhã já havia chegado, quando ele acordou. Lembrou-se imediatamente da noite passada e uma lembrança fez com que se sentisse especialmente mal. Levantou-se em um pulo, e, de cueca e descalço, saiu de casa às pressas. Deitada, ela apenas esperou que ele retornasse.
            
— O lixeiro passou cedo... — disse, de maneira lúgubre, quando retornou.
            
— Está em cima da mesa, na dispensa. — ela, com voz de sono.
            
Não foi preciso que ela dissesse mais nada, ele foi até a dispensa. Retornou segurando a camisa alvinegra, amarrotada e marcada de suor. Não podia esconder uma expressão de alívio.
            
— Eu te amo, Júlia.
            
Ela apenas sorriu.

Anderson Lobo
(aprendiz de domador de palavras)

4 comentários :

  1. Demais cara, o sentimento é esse mesmo! E quem nunca quis jogar fora a camisa?

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  2. Adorei! Descreve, nesse cômico relato, uma característica essencial dos relacionamentos: empatia!

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